quinta-feira, 19 de março de 2009

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Não fiz muita coisa nesse carnaval. Quer dizer, eu fiz muita coisa, mas não aquelas que se esperam de um feriado. Eu trabalhei. E trabalhei bastante. Posso dizer até que fiquei em retiro com a minha esposa, com breves saídas ao mercado. E nesse tempo onde normalmente as pessoas se reúnem, ficamos um tanto solitários. Me peguei pensando na dinâmica de algumas amizades que desenvolvi ao longo do tempo.

Eu sou um cara relacional. Gosto de gente e de estar rodeado por elas. Gosto de me sentar sem pressa e me perder numa conversa. As melhores delas romperam muitas madrugadas, principalmente numa pequena ponte de Retiro do Muriaé. Saudosismo à parte, minhas amizades são regadas a café, gargalhadas e, por que não dizer, lágrimas. Apesar de não saber que por que usar (na verdade eu nunca sei e isso envergonha meu bacharelado em Letras na UFRJ), eu sei exatamente por que tenho amigos e me impressiono pela variedade deles.

Tenho um tipo especial de amigo que nunca me liga, mas que sempre está numa eterna disposição de fazê-lo. Ele está sempre a marcar alguma coisa, um encontro, uma conversa, mas raramente marca. Nem preciso dizer o quanto isso me chateia, mas é só me encontrar com ele (eles, na verdade) que minha chateação parece nunca ter existido. Com o tempo, aprendi a não esperar que ele me ligasse, que me convidasse pra algo ou simplesmente que aparecesse de surpresa. Aprendi a aproveitar cada segundo de um eventual encontro. Cada frase, cada riso, cada suspiro. E sempre é bom; mais que bom, na verdade. Fora disso, não espero muita coisa.

Mentira deslavada. A gente sempre espera mais. E o fato de me entristecer ao escrever isso só revela que odeio esse limbo entre os encontros. Odeio o telefone que não toca, a carta que não chega, a voz que não se espalha.

Pronto, desabafei. Beijo, me liga.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Volta pra casa

Aqui estou eu. Frente ao computador. Deixo meus dedos cairem sobre as teclas sem muita pretensão; contando as horas antes do meu voo de volta pra casa.

Durante uma certa fase da vida, casa havia se tornado, de alguma forma, um substantivo abstrato. Quando saí da casa dos meus pais, nenhuma volta significava estar de novo em casa. Quando batia a porta do meu quarto no alojamento da UFRJ, casa era a última definição que eu poderia dar àquele lugar. Quando morei no antigo e saudoso escritório da Cruzada no Rio, quase me senti em casa. Minha correspondência chegava na Rua Grão de Areia e de certo modo eu era feliz. Por seis meses depois eu morei em Niterói. Eu tinha um quarto, um colchão e uma eita de caixas semi-abertas. Todas as coisas que eu possuía cabiam em oito caixas - seis delas de livros.

Esperei mais de oito anos pra me sentir em casa novamente. Sentir o abraço aconchegante das paredes, a segurança emoldurada pelas janelas, o sorriso de portas se abrindo depois de um dia fustigante. Sinto saudade do meu sofá, da minha cama e do meu colchão de molas. Sinto saudade dos meus livros, do meu edredom repleto de palavras. E não haverá nenhuma comparação com o céu ou qualquer alusão espiritualista.

Apenas sinto saudades da minha casa cravada na terra. Minha casa que deve estar repleta de mofo e , se eu der sorte, nennhuma surpresa das chuvas.

O que é responsável por esse sentimento? O que instaura essa sençasão de pertencimento? Não sei. O que importa no momento é a simples sentença: estou voltando pra casa.

domingo, 4 de janeiro de 2009

E o mundo não acabou em 2000

Não sei se alguém se lembra, mas na minha época do primeiro grau, as meninas tinham um caderninho recheado das perguntas mais interessantes. Esse mesmo caderno passava de mão em mão, coletando informações aparentemente aleatórias, mas seu objetivo único era descobrir, ou pelo menos tentar, se o gatinho pelo qual a gatinha estava interessada também correspondia de alguma maneira. Em última instância, ajudava a conhecer melhor as rivais. Tenho pra mim, hoje, que elas me davam o bendito caderno pra preencher simplesmente pra disfarçar, pra mostrar que qualquer menino podia responder e assim mascarar a real intenção.

Auto-estima e ingenuidade à parte, eu me lembro muito bem das perguntas. Entre cores preferidas e outras peculiaridades, havia uma que encerrava toda minha expectativa de vida: "com quantos anos você quer se casar?". A resposta era a mesma em todos os cadernos: 18 anos. Não era um número escolhido ao acaso. Ele havia sido pacientemente estudado, baseado numa profecia apocalíptica.

Eu tinha entre 11 e 12 anos e não sei bem ao certo de onde alguém tirou que na Bíblia falava claramente que o mundo acabaria em 2000. Usavam ainda por cima uma frase com toda pinta de profecia: "A 2000 chegarás, mas de 2000 não passarás". Assim, desse jeito, em segunda pessoa e tudo, quem poderia duvidar da veracidade? Eu pelo menos não duvidava. Meu plano era de uma simplicidade brilhante. Eu me casaria aos 18, teria tempo pra aproveitar todo o sexo abençoado dentro do casamento que o bom Deus me permitiria. Sim, sexo. Nunca conheci alguém que quisesse ir pro céu virgem, mas deve existir; não era o meu caso. Enfim, eu teria 2 anos de diversão e ainda poderia até ter um filho. O bichinho, sendo inocente, iria pro céu na maior moleza. Se houvesse um prêmio nobel pra planejamento familiar, ele seria meu. Definitivamente.

Meus 18 anos chegaram sem casamento, sem sexo e, por dedução lógica, sem filho algum. Com meu plano dando todo errado, só restava orar e torcer pro ano 2000 passar batido. Na época, minha moral com Deus devia estar melhor do que agora, porque o mundo não acabou, como todo mundo sabe. Fico pensando em toda expectativa nutrida pelos meus 18 anos. Ele veio, passou e sumiu e mal deixou lembrança.

Me casei, virgem, aos 27 e agora, aos 28, fico planejando um filho lá pela altura dos 30. Escrevo esse post de Maceió, da casa dos meus sogros, uma cidade que conheci aos 22 e que nem sabia da existência aos 11. Ainda bem que o mundo não acabou em 2000. Eu estava no primeiro período da faculdade, dando graças a Deus por não estar casado e nem ter filhos. Quanto à virgindade...bem...valeu muito a pena esperar. Mas foi dureza. Literalmente.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe - e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso" (Donald Miller)


Esse texto eu roubei emprestado do perfil orkuteano de uma amiga (beijo, Cássia. Cadê minha cuia de chimarrão?). Eu já o tinha visto várias vezes, lido algumas, mas só ontem eu lhe dei abrigo. Esse ontem é um espaço atemporal e só Deus sabe quanto tempo eu vou levar pra conseguir escrever esse post, que é de alguma forma uma extensão do "sobre a natureza do medo".

Como pode um texto com o qual você esbarra tantas vezes derrepente fazer tanto sentido e te atingir fulminante feito um infarto? A pergunta é um tanto retórica, eu sei, mas inevitável.

Ah! Sabe de uma coisa? Eu não deveria nem ter escrito nada logo que aquele parêntese se fechou. Tudo o que eu escrever aqui vai ser vazio demais diante do que estou sentindo. E a palavra está me deixando na mão. Mais uma vez.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Enxaqueca

A cegueira que agoniza
O coração a bater entre as orelhas.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Sobre a natureza do medo

Esse texto deveria se chamar " Sobre a natureza do MEU medo", mas deixei assim mesmo, porque bem no fundo acredito que ele não seja apenas meu, por mais que pouca gente tenha coragem de manifestá-lo. Não espere um texto primoroso, nem desafiador, tampouco filosófico ou ainda teológico. É apenas um desabafo. Um daqueles pensamentos que se deixa escapar em momentos de extremo cansaço, ou um pensamento dito em voz alta, sem querer. Mas que, ao sair, apesar do embaraço, dá uma certa sensação de liberdade e alivia uma espécie de complexo de Atlas, por querer levar o mundo nas costas, ou melhor, um mundo; por menor que ele seja, e por mais pessoal que seja.

Quando nos debruçamos sobre o próprio medo tudo é turvo. Ficamos alí, meio que cegos tateando em desespero. Conhecemos nosso medo porque ele tem forma e por isso somos capazes de encontrá-lo no escuro. Sobretudo no escuro. O que normalmente encontro não é uma forma definida. É como tatear pedras e estar vendado. Algumas são absurdamente diferentes, mas outras são muito parecidas, e nesse ponto é que as coisas realmente nos escapam. Durante muito tempo eu segurei um medo em minhas mãos e acreditava piamente se tratar dO medo. Aquele medo primordial, que rouba o sono e seca a boca. E por mais que roubasse o sono e secasse a boca, não era ele.

Tenho um amigo que é míope, e outros míopes se confortam nisso. Não acredito que outros cegos se consolem na minha cegueira. Meus olhos estão repletos de escamas que não caem. Cada um precisa aprender a lidar com suas deficiências. E a minha me enganou por um tempo considerável. Um tempo que começou na adolescência, no exato momento que eu deixei de acreditar nas coisas simplesmente por osmose e passei a necessitar de um um pouco de esforço pra isso.

Sempre tive medo de acreditar que Deus não existisse. Por mais que eu tenha 99,9% de certeza, os 0,01 restante às vezes parecia ter mais corpo e numa relação inversamente proporcional, parecia maior. Terrivelmente maior. Se Deus me mandasse um bilhete apenas, uma mensagem no celular ou um scrap no orkut poria fim nisso, o que na verdade eu até duvido muito. Acho que precisaria mesmo do arcanjo Miguel com uma mensagem em papiro e com a firma reconhecida em cartório e tendo como testemunha os 12 apóstolos. Mas esse medo era uma mutação do medo original. Uma espécie de vírus que se transforma pra iludir o organismo. Para chamar toda a atenção dos leucócitos, enquanto o vírus real, o original, pôde ir se desenvolvendo sem muitas dificuldades. Mesmo que imperceptível. Não sei ao certo se a luz conseguiu penetrar num milissegundo capaz de me mostrar o erro, ou se foi outro cego com o tato mais sensível. A verdade pura e simples, por mais que pureza e simplicidade não sejam aplicáveis, é que meu medo não tem nada a ver com a existência ou não de Deus. Tem a ver com seu caráter.

Descobri que o medo que me compunge é descobrir que Deus não é bom, e que o sadismo irônico que, teima em querer mostrar a face no universo, realmente tenha uma face. Medo de que o sofrimento não tenha nenhuma função pedagógica e que C.S. Lewis tenha se equivocado quantao ao "megafone de Deus". Mas como eu posso querer ser aferidor da bondade de Deus baseado apenas no meu conceito de bondade? Se a minha justiça é como "trapo de imundície", minha bondade não está nada distante da mesma metáfora. E qualquer tipo de comparação me alçaria a um patamar acima de Deus(ou semelhante a Ele) e eu conheço uma história parecida que não terminou nada bem. Saber disso consola menos do que saber que a minha mente limitada não é capaz de processar Deus em sua plenitude. O que muda afinal de contas quando a resposta para a pergunta real lhe escapa tanto quanto para o sofisma?

Mas continuo eu aqui: em meio à dúvida e certeza, medo e fé. Mas percebo algo que muda completamente o meu estado. Apesar de continuar tateando medos e incertezas sem enxergar, faço-o não como quem está no escuro, mas como quem olha diretamente para o sol.

No fim das contas continuo cego, mas é por tanta luz me iluminar.